Introduction
O tratamento das allergies evoluiu significativamente nas últimas décadas, desde o controlo sintomático com anti-histamínicos até à modificação da doença com imunoterapia específica. A abordagem terapêutica das alergias segue uma estratégia escalonada: evicção alergénica, tratamento farmacológico e imunoterapia quando indicada.
A European Academy of Allergy and Clinical Immunology (EAACI) e a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) publicam guidelines atualizadas para o tratamento das diversas manifestações alérgicas, integrando as novas terapêuticas biológicas que revolucionaram a gestão da asma grave e da dermatite atópica.
Evicção Alergénica e Medidas Ambientais
A evicção do alergénio responsável é a primeira medida terapêutica em quaisquer allergies. Para os ácaros do pó doméstico — o alergénio perene mais importante em Portugal — as medidas incluem capas antiácaros para colchões e almofadas, lavagem da roupa de cama a 60°C semanalmente, redução da humidade ambiental para menos de 50 % e remoção de tapetes e cortinados pesados do quarto.
Para as alergias a pólenes, a SPAIC publica boletins polínicos semanais que permitem aos doentes monitorizar os níveis de pólen e ajustar as suas atividades. Medidas práticas incluem manter as janelas fechadas nos dias de contagens polínicas elevadas, usar óculos de sol no exterior, tomar banho e mudar de roupa ao chegar a casa, e evitar atividades ao ar livre nas primeiras horas da manhã.
Para allergies alimentares, a evicção rigorosa do alimento responsável é essencial. A legislação europeia obriga à rotulagem de 14 alergénios alimentares em todos os alimentos embalados e em restauração. A Direção-Geral da Saúde (DGS) e a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) supervisionam o cumprimento da rotulagem de alergénios alimentares em Portugal.
Tratamento Farmacológico das Alergias
Os anti-histamínicos de segunda geração (cetirizina, loratadina, desloratadina, bilastina, fexofenadina) são o tratamento de primeira linha para rinite alérgica e urticária. Atuam bloqueando os recetores H1 da histamina, aliviando espirros, prurido, rinorreia e urticária sem causar sonolência significativa. A EAACI recomenda o uso regular (não apenas quando há sintomas) durante os períodos de exposição alergénica.
Os corticosteroides intranasais (fluticasona, mometasona, budesonida) são o tratamento mais eficaz para a rinite alérgica moderada a grave, reduzindo todos os sintomas nasais incluindo a congestão. A European Position Paper on Rhinosinusitis and Nasal Polyps (EPOS) recomenda os corticosteroides intranasais como monoterapia ou em combinação com anti-histamínicos para rinite persistente.
Para a asma alérgica, os corticosteroides inalados são o pilar do tratamento preventivo, conforme as recomendações da Global Initiative for Asthma (GINA). Os broncodilatadores de ação curta (salbutamol) são utilizados como terapêutica de alívio. As terapêuticas biológicas — omalizumab (anti-IgE), mepolizumab e benralizumab (anti-IL-5), dupilumab (anti-IL-4/IL-13) — transformaram a gestão da asma alérgica grave e da dermatite atópica moderada a grave.
Imunoterapia Específica com Alergénios
A imunoterapia específica com alergénios (ITA) é o único tratamento que modifica a história natural da doença alérgica, induzindo tolerância imunológica ao alergénio. A ITA está indicada na rinite alérgica, asma alérgica ligeira a moderada e alergia a veneno de himenópteros (abelhas, vespas), quando a evicção e a farmacoterapia são insuficientes.
A imunoterapia pode ser administrada por via subcutânea (injeções mensais durante 3 a 5 anos) ou sublingual (comprimidos ou gotas diários durante 3 anos). A EAACI recomenda que a imunoterapia seja prescrita por alergologistas e iniciada com base em diagnóstico molecular preciso. Estudos publicados no Journal of Allergy and Clinical Immunology demonstram redução de 30 a 40 % nos sintomas e no consumo de medicação, com benefícios que persistem anos após a conclusão do tratamento.
Em Portugal, a imunoterapia sublingual está amplamente disponível, com extratos padronizados para ácaros, pólenes de gramíneas e pólen de oliveira. A SPAIC promove o acesso à imunoterapia como tratamento preventivo, reconhecendo que pode prevenir a progressão da rinite alérgica para asma e o aparecimento de novas sensibilizações alérgicas em crianças.
In Doctor on the Net, a equipa clínica oferece aconselhamento sobre tratamento de alergias, prescrição de anti-histamínicos e corticosteroides, e orientação para imunoterapia específica quando indicado.
Perguntas frequentes (FAQ)
Os anti-histamínicos causam sonolência?
Os anti-histamínicos de segunda geração (cetirizina, loratadina, bilastina) causam muito menos sonolência que os de primeira geração. A bilastina e a fexofenadina são os que menos afetam a vigília.
A imunoterapia cura a alergia?
A imunoterapia não é uma cura definitiva para as allergies, mas modifica a resposta imunitária, reduzindo significativamente os sintomas e a necessidade de medicação. Os benefícios podem persistir durante anos após a conclusão do tratamento.
Posso tomar anti-histamínicos durante a gravidez?
Alguns anti-histamínicos são considerados seguros na gravidez. A cetirizina e a loratadina são os mais utilizados. Consulte sempre o seu médico antes de tomar medicação durante a gravidez.
Os corticosteroides nasais são seguros a longo prazo?
Sim. Os corticosteroides intranasais têm absorção sistémica mínima e são considerados seguros para uso prolongado por todas as guidelines internacionais, incluindo em crianças.
A vacina da alergia funciona para todos os alergénios?
A imunoterapia está bem validada para ácaros, pólenes, pelos de animais e veneno de himenópteros. Não existe imunoterapia eficaz para alergias alimentares por rotina, embora a dessensibilização oral ao amendoim esteja em investigação avançada.
Conclusion
O tratamento das allergies dispõe atualmente de um arsenal terapêutico amplo e eficaz, desde medidas de evicção e anti-histamínicos até imunoterapia específica e terapêuticas biológicas. A abordagem escalonada, individualizada segundo a gravidade e o tipo de alergia, permite controlar os sintomas e melhorar substancialmente a qualidade de vida dos doentes alérgicos. A imunoterapia permanece o único tratamento capaz de modificar a evolução natural da doença alérgica.
Referências
European Academy of Allergy and Clinical Immunology. EAACI Guidelines on Allergen Immunotherapy
Global Initiative for Asthma. GINA Report: Global Strategy for Asthma Management and Prevention