Introduction
A tricomoníase é a causa mais frequente de vaginite de origem infecciosa tratável a nível mundial, afetando desproporcionalmente as mulheres em idade reprodutiva. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que as mulheres representam a maioria dos 156 milhões de novos casos anuais de tricomoníase, com consequências significativas para a saúde reprodutiva e obstétrica.
Apesar da sua prevalência, recebe menos atenção mediática e científica do que outras infeções sexualmente transmissíveis (ISTs), sendo frequentemente descrita como uma “IST negligenciada”. O impacto na saúde vaginal, na fertilidade e nos desfechos obstétricos justifica uma abordagem clínica mais atenta e proativa.
Tricomoníase e Saúde Vaginal
A infeção por Trichomonas vaginalis perturba o equilíbrio do microbioma vaginal, reduzindo os lactobacilos protetores e elevando o pH vaginal. Esta alteração facilita a coinfecção com vaginose bacteriana e outras ISTs, criando um ciclo de vulnerabilidade na saúde vaginal.
O corrimento típico da tricomoníase — espumoso, amarelo-esverdeado e com odor fétido — resulta da resposta inflamatória intensa provocada pelo protozoário. A colpite macular (“colo em morango”), visível à colposcopia em 2 a 5 % dos casos, é um achado patognomónico, embora pouco sensível.
A Sociedade Portuguesa de Ginecologia recomenda a pesquisa de Trichomonas vaginalis no diagnóstico diferencial de vaginites, especialmente quando o corrimento é refratário ao tratamento empírico para candidíase ou vaginose bacteriana. O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) reforça que se deve atentar considerada em todas as mulheres com sintomas vaginais persistentes.
Tricomoníase na Gravidez
A tricomoníase durante a gravidez está associada a complicações obstétricas significativas, incluindo rotura prematura de membranas, parto pré-termo, corioamnionite e baixo peso ao nascer. Uma meta-análise publicada na revista Obstetrics & Gynecology confirmou um risco 1,4 vezes superior de parto pré-termo em grávidas com tricomoníase.
O rastreio universal na gravidez não é atualmente recomendado na Europa, embora o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) recomende rastreio em grávidas VIH-positivas e considere o rastreio em grávidas de alto risco.
O tratamento da tricomoníase na gravidez com metronidazol é considerado seguro em todos os trimestres pelo CDC, embora alguns autores prefiram adiar o tratamento de infeções assintomáticas para após o primeiro trimestre. A resolução da infeção antes do parto é importante para prevenir a transmissão neonatal e reduzir o risco de complicações obstétricas.
Rastreio e Diagnóstico na Mulher
The diagnosis of tricomoníase na mulher pode ser realizado durante o exame ginecológico, com colheita de exsudado vaginal para teste NAAT (método de referência), exame microscópico a fresco ou teste rápido point-of-care.
O teste NAAT para Trichomonas vaginalis está disponível como parte de painéis de diagnóstico molecular de vaginites (painéis multiplex) que detetam simultaneamente tricomoníase, candidíase e vaginose bacteriana. A British Association for Sexual Health and HIV (BASHH) recomenda o uso de NAAT para o diagnóstico definitivo.
O rastreio oportunístico de tricomoníase é recomendado em mulheres com ISTs diagnosticadas, mulheres VIH-positivas, mulheres com múltiplos parceiros sexuais e mulheres em contexto de detenção. A Direção-Geral da Saúde (DGS) de Portugal integra a tricomoníase nas orientações para gestão sindrómmica de corrimento vaginal.
In Doctor on the Net, a equipa clínica oferece diagnóstico especializado de tricomoníase e outras causas de vaginite, com tratamento personalizado e aconselhamento sobre prevenção e saúde vaginal.
Perguntas frequentes (FAQ)
A tricomoníase pode ser confundida com candidíase?
Sim. Os sintomas de tricomoníase, candidíase e vaginose bacteriana podem sobrepor-se. O diagnóstico laboratorial é essencial para distinguir estas condições e garantir tratamento adequado.
A tricomoníase afeta a fertilidade feminina?
Sim. Pode contribuir para inflamação pélvica e alteração do microbioma vaginal, potencialmente afetando a fertilidade. O tratamento atempado previne estas consequências.
Devo fazer rastreio de tricomoníase na gravidez?
O rastreio é recomendado para grávidas VIH-positivas e grávidas com fatores de risco. A decisão deve ser individualizada com o obstetra, considerando o perfil de risco.
O tratamento com metronidazol é seguro na gravidez?
Sim. O CDC considera o metronidazol seguro em todos os trimestres da gravidez para o tratamento. Os benefícios do tratamento superam os riscos potenciais.
A tricomoníase pode causar cancro cervical?
Alguns estudos sugerem associação entre tricomoníase e risco aumentado de neoplasia cervical, possivelmente mediada pela coinfeção com HPV. Contudo, a relação causal não está estabelecida.
Conclusion
A tricomoníase é uma IST frequente e subestimada com impacto significativo na saúde vaginal e obstétrica das mulheres. O diagnóstico laboratorial preciso, o rastreio em populações de risco e o tratamento atempado são essenciais para proteger a saúde reprodutiva e prevenir complicações a si associadas.