Introduction
The tratamento da enxaqueca evoluiu significativamente nas últimas décadas, com o desenvolvimento de terapêuticas específicas que transformaram a gestão desta condição neurológica. A abordagem terapêutica da enxaqueca divide-se em tratamento agudo (abortivo) das crises e tratamento preventivo (profilático) para reduzir a frequência e gravidade dos episódios.
A European Academy of Neurology (EAN) e a European Headache Federation (EHF) publicam guidelines atualizadas para o tratamento da enxaqueca, incorporando as novas classes terapêuticas que emergiram na última década. Em Portugal, o acesso a estas terapêuticas tem vindo a melhorar, com a aprovação progressiva de novos fármacos pelo INFARMED.
Tratamento Agudo da Enxaqueca
O tratamento agudo deve ser iniciado o mais precocemente possível, idealmente quando a dor é ainda ligeira. Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) — ibuprofeno 400-600 mg, naproxeno 500-750 mg — são eficazes nas crises ligeiras a moderadas de enxaqueca. O paracetamol 1000 mg é uma alternativa aceitável, embora menos eficaz que os AINEs.
Os triptanos são o tratamento de referência para as crises moderadas a graves. O sumatriptano (50-100 mg oral, 6 mg subcutâneo), rizatriptano (10 mg), zolmitriptano (2,5-5 mg) e almotriptano (12,5 mg) são os mais utilizados. Os triptanos atuam como agonistas dos recetores 5-HT1B/1D, causando vasoconstrição intracraniana e inibição da libertação de neuropéptidos inflamatórios. A eficácia dos triptanos é de 60 a 70 % na resolução da dor às 2 horas.
O NICE recomenda a combinação de triptano com AINE (por exemplo, sumatriptano + naproxeno) para crises que não respondem a monoterapia. Os antieméticos (domperidona, metoclopramida) são frequentemente necessários como adjuvantes, melhorando a absorção oral dos analgésicos e aliviando as náuseas. O uso de analgésicos agudos deve ser limitado a menos de 10 dias por mês (triptanos) ou 15 dias por mês (AINEs) para evitar cefaleia por uso excessivo de analgésicos.
Tratamento Preventivo da Enxaqueca
The tratamento preventivo da enxaqueca é indicado quando as crises ocorrem 4 ou mais vezes por mês, quando as crises são muito incapacitantes, quando o tratamento agudo é ineficaz ou mal tolerado, ou quando existe risco de cefaleia por uso excessivo de analgésicos. O objetivo é reduzir a frequência das crises em pelo menos 50 %.
Os fármacos preventivos clássicos incluem betabloqueadores (propranolol 40-160 mg/dia), antiepilépticos (topiramato 50-100 mg/dia, valproato de sódio), antidepressivos tricíclicos (amitriptilina 10-75 mg/dia) e bloqueadores dos canais de cálcio (flunarizina 5-10 mg/dia). A European Headache Federation recomenda um período experimental de 2 a 3 meses para avaliar a eficácia de cada fármaco preventivo.
A toxina botulínica tipo A (onabotulinumtoxinA) é um tratamento preventivo aprovado especificamente para a migraine crónica. Administrada em 31 pontos de injeção na cabeça e pescoço a cada 12 semanas, reduz significativamente os dias de cefaleia. A Direção-Geral da Saúde (DGS) integra a toxina botulínica nas opções terapêuticas para migraine crónica em centros especializados de cefaleias em Portugal.
Anticorpos Monoclonais Anti-CGRP: Uma Nova Era
Os anticorpos monoclonais dirigidos contra o peptídeo relacionado com o gene da calcitonina (CGRP) ou o seu recetor representam a primeira classe terapêutica desenvolvida especificamente para a prevenção da enxaqueca. O erenumab, fremanezumab, galcanezumab e eptinezumab demonstraram eficácia robusta na redução dos dias de migraine em ensaios clínicos de fase III.
Estes fármacos são administrados mensalmente ou trimestralmente por injeção subcutânea (ou intravenosa, no caso do eptinezumab), com início de ação rápido e perfil de tolerabilidade excelente. Os ensaios clínicos publicados no New England Journal of Medicine demonstram reduções médias de 3 a 5 dias de migraine por mês, com 30 a 40 % dos doentes atingindo redução de 75 % ou mais.
Em Portugal, o erenumab e o galcanezumab estão aprovados pelo INFARMED para prevenção da migraine em adultos com 4 ou mais dias de sintomas por mês. Os gepants orais (ubrogepant, rimegepant, atogepant) são a classe mais recente, atuando como antagonistas do recetor de CGRP por via oral, com indicação tanto no tratamento agudo como na prevenção. A European Academy of Neurology (EAN) integra os anticorpos anti-CGRP como opção de segunda ou terceira linha no tratamento preventivo da enxaqueca.
In Doctor on the Net, a equipa clínica oferece avaliação completa das opções terapêuticas para migraine, incluindo tratamento agudo otimizado, terapêutica preventiva e orientação sobre as novas abordagens farmacológicas disponíveis.
Perguntas frequentes (FAQ)
Posso tomar analgésicos todos os dias para a enxaqueca?
Não. O uso excessivo de analgésicos (mais de 10-15 dias/mês) pode causar cefaleia por abuso de medicação, piorando paradoxalmente as dores de cabeça. Consulte o seu médico se necessitar de analgésicos frequentemente.
Os triptanos são seguros?
Os triptanos são seguros para a maioria dos doentes com migraine. Estão contraindicados em pessoas com doença cardiovascular, hipertensão não controlada e enxaqueca hemiplégica. Os efeitos secundários são geralmente ligeiros (aperto torácico, formigueiro).
Quando devo considerar tratamento preventivo?
O tratamento preventivo é recomendado se tiver 4 ou mais crises de migraine por mês, crises muito incapacitantes, ou se o tratamento agudo for insuficiente. Converse com o seu médico sobre as opções disponíveis.
Os novos tratamentos anti-CGRP estão disponíveis em Portugal?
Sim. O erenumab e o galcanezumab estão aprovados pelo INFARMED para prevenção da migraine. A prescrição é geralmente iniciada em centros especializados de cefaleias, após falha de tratamentos preventivos convencionais.
A enxaqueca pode ser curada?
Não existe cura, mas os tratamentos atuais permitem controlar eficazmente a frequência e gravidade das crises. A combinação de tratamento farmacológico com identificação de desencadeantes oferece os melhores resultados.
Conclusion
The tratamento da enxaqueca dispõe atualmente de um arsenal terapêutico diversificado e eficaz, desde os AINEs e triptanos para crises agudas até aos anticorpos monoclonais anti-CGRP para prevenção. A individualização do tratamento, a evicção de uso excessivo de analgésicos e a introdução atempada de terapêutica preventiva são fundamentais para melhorar a qualidade de vida dos doentes com migraine.