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Infeção Urinária de Repetição: Como Prevenir e Tratar

Introdução

A infeção urinária de repetição é um problema clínico frequente que afeta significativamente a qualidade de vida, sobretudo entre as mulheres. Define-se como a ocorrência de dois ou mais episódios de infeção urinária em seis meses, ou três ou mais em doze meses. Segundo a European Association of Urology (EAU), cerca de 25 a 30% das mulheres que têm uma primeira infeção urinária terão recorrências, e 5% desenvolverão infeções verdadeiramente recorrentes.

A recorrência pode dever-se a reinfecção — nova infeção por um microrganismo diferente ou pelo mesmo, após cura comprovada — ou a recidiva, quando o mesmo microrganismo persiste devido a tratamento incompleto ou a um reservatório oculto. Compreender a diferença entre estes mecanismos é fundamental para adotar a estratégia terapêutica correta. A Sociedade Portuguesa de Nefrologia alerta que a infeção urinária recorrente pode, a longo prazo, causar danos renais se não for adequadamente investigada e tratada.

Causas da Recorrência

A Escherichia coli é responsável por 75 a 90% dos episódios recorrentes. Alguns fatores predisponentes incluem alterações na flora vaginal (uso frequente de antibióticos, espermicidas), predisposição genética com menor expressão de recetores de manose no urotélio, e atrofia urogenital por défice de estrogénios nas mulheres pós-menopáusicas. A obstipação crónica, o esvaziamento vesical incompleto e as anomalias anatómicas do trato urinário são fatores adicionais.

Investigações recentes publicadas na Nature Reviews Urology demonstram que certas estirpes de E. coli possuem capacidade de formar biofilmes e comunidades bacterianas intracelulares na mucosa vesical, o que explica a persistência e recorrência mesmo após tratamento antibiótico aparentemente eficaz.

Investigação Diagnóstica

Quando a infeção urinária é recorrente, a urocultura é obrigatória em cada episódio para identificar o agente e o padrão de resistência. Podem ser necessários exames complementares como a ecografia renal e vesical com medição do resíduo pós-miccional, cistoscopia ou estudos urodinâmicos. A Direção-Geral da Saúde (DGS) recomenda a investigação urológica em mulheres com mais de três episódios anuais sem fatores de risco identificáveis, e em todos os homens com infeções urinárias recorrentes.

A avaliação ginecológica é também importante para excluir prolapso dos órgãos pélvicos, atrofia vaginal e outras condições que possam contribuir para a recorrência. O diário miccional pode ser útil para identificar hábitos que favoreçam a infeção urinária.

Prevenção Não Farmacológica

As medidas comportamentais são o primeiro passo na prevenção das infeções urinárias recorrentes. A ingestão abundante de água — pelo menos 1,5 litros por dia — demonstrou reduzir em cerca de 50% a taxa de recorrência num ensaio clínico publicado no JAMA Internal Medicine (2018). A micção regular, a micção pós-coital, a evicção de espermicidas e a higiene perineal adequada (limpar da frente para trás) são medidas amplamente recomendadas.

A aplicação vaginal de estrogénios em mulheres pós-menopáusicas demonstrou reduzir significativamente a recorrência ao restaurar a flora lactobacilar protetora, segundo uma meta-análise publicada no British Medical Journal. A utilização de probióticos vaginais com Lactobacillus é uma área de investigação promissora, embora a evidência seja ainda preliminar.

Profilaxia Farmacológica e Imunoterapia

Nos casos em que as medidas não farmacológicas são insuficientes, pode ser considerada a profilaxia antibiótica contínua em dose baixa (nitrofurantoína 50-100 mg/dia) durante 3 a 6 meses, ou a profilaxia pós-coital. A imunoterapia com lisado bacteriano de E. coli (OM-89/Uro-Vaxom) é recomendada pela EAU como opção profilática com evidência de eficácia moderada, atuando pela estimulação da resposta imunitária local.

O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) alerta para o aumento global das resistências antimicrobianas, sublinhando a importância de usar antibióticos apenas quando estritamente necessário e de privilegiar abordagens não antibióticas sempre que possível. A D-manose é um suplemento com alguma evidência positiva na prevenção, atuando por inibição da adesão bacteriana ao urotélio.

Na Médico na Net, disponibilizamos avaliação clínica de infeções urinárias recorrentes, requisição de exames laboratoriais e de imagem, elaboração de planos de prevenção personalizados e referenciação para urologia ou ginecologia quando necessário.

Homem em casa a realizar consulta médica por vídeo no portátil para diagnóstico de infeção urinária com profissional de saúde.

Perguntas frequentes (FAQ)

Considera-se infeção urinária recorrente a ocorrência de dois ou mais episódios em seis meses, ou três ou mais em doze meses, segundo a definição da European Association of Urology (EAU).

A profilaxia com antibióticos em dose baixa durante 3 a 6 meses é geralmente bem tolerada. Os efeitos adversos mais comuns incluem náuseas e candidíase vaginal. O principal risco a longo prazo é o desenvolvimento de resistências bacterianas, pelo que deve ser monitorizada pelo médico.

Os probióticos vaginais com Lactobacillus podem ajudar a restaurar a flora protetora e reduzir o risco de recorrência da infeção urinária, particularmente em mulheres pós-menopáusicas. No entanto, a evidência científica é ainda limitada e não substituem outras medidas preventivas.

Os produtos à base de arando (cranberry) contêm proantocianidinas que podem inibir a adesão de E. coli à parede vesical. A evidência é modesta, mas alguns estudos sugerem benefício em mulheres com infeções recorrente, como complemento de outras medidas.

Sim, a investigação com ecografia renal e vesical é recomendada para excluir anomalias estruturais, cálculos ou resíduo pós-miccional significativo. Em casos selecionados, a cistoscopia pode ser necessária.

Conclusão

A infeção urinária de repetição é uma condição frequente que requer uma abordagem estruturada: investigação adequada das causas, medidas preventivas comportamentais, e intervenção farmacológica quando indicada. A combinação de hidratação adequada, profilaxia não antibiótica e acompanhamento médico regular pode reduzir significativamente a frequência dos episódios e melhorar a qualidade de vida.

Referências

European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urological Infections

Sociedade Portuguesa de Nefrologia. Infeções Urinárias Recorrentes — Revisão

Hooton TM et al. Effect of increased daily water intake in premenopausal women with recurrent UTI

Beerepoot MA et al. Nonantibiotic prophylaxis for recurrent UTIs: a systematic review

Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Antibiotic Resistance Threats

Direção-Geral da Saúde (DGS). ITU na Comunidade

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Dra. Alexandra Azevedo

Formação: Universidade de Barcelona
Nº ordem dos médicos: 71409

Biografia

A Dra. Alexandra Azevedo formou-se em Medicina na Universidade de Barcelona em 2015, onde posteriormente se especializou em Medicina Geral e Familiar. Durante a sua formação, desenvolveu um forte interesse pela abordagem à dor crónica, tendo realizado um mestrado integrado em Medicina e Cirurgia com investigação na Clínica no controlo da Dor. A sua experiência profissional inclui vários anos de prática clínica em Espanha, nomeadamente na Catalunha, onde teve contacto com uma grande diversidade de patologias e desafios, tanto na urgência, como nos cuidados de saúde primários.

Atualmente, exerce como médica de família na ULS Braga. Já integrou a equipa da urgência médico-cirúrgica do Hospital de Vila Nova de Famalicão e já colaborou como professora convidada na Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho, lecionando anatomia e fisiologia do sistema circulatório, respiratório e digestivo.

Os seus principais interesses clínicos incluem a urgência médica, a dor crónica, a depressão e a ansiedade, bem como a medicina preventiva e o controlo de fatores de risco vasculares. Dedica-se também à consulta antitabágica e à consulta de perda de peso, ajudando os seus pacientes a adotar hábitos de vida mais saudáveis. A sua abordagem ao cuidado baseia-se numa visão holística, considerando a saúde como um equilíbrio entre o bem-estar físico e psicológico.

A Dra. Alexandra distingue-se pelo seu humanismo e pela capacidade de oferecer soluções rápidas e eficazes para problemas menores, garantindo que os seus pacientes se sintam bem acompanhados. No Médico na Net, vê uma oportunidade de levar os cuidados de saúde a mais pessoas de forma acessível e conveniente.

Apaixonada por música e viagens, adora conhecer diferentes culturas e estilos de vida, o que enriquece a sua visão do mundo e a sua prática médica. Para ela, a medicina não é apenas uma profissão, mas um verdadeiro compromisso com o bem-estar das pessoas que acompanha. Como gosta de dizer: “A saúde é o equilíbrio entre o bem-estar físico e psicológico.