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Enxaqueca Crónica: Quando a Dor de Cabeça Se Torna Diária

Introdução

A enxaqueca crónica é uma forma grave e incapacitante de enxaqueca, definida como a presença de cefaleia em 15 ou mais dias por mês, dos quais pelo menos 8 com características de enxaqueca, durante mais de 3 meses consecutivos. Afeta cerca de 1,5 a 2,5 % da população, representando uma das principais causas de incapacidade global segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

A transição da enxaqueca episódica para crónica (cronificação) ocorre a uma taxa de 2,5 % por ano em doentes com enxaqueca episódica não controlada. Em Portugal, estima-se que 150 000 a 250 000 pessoas sofrem de enxaqueca crónica, com impacto profundo na qualidade de vida, produtividade laboral e saúde mental. A International Headache Society (IHS) e a European Headache Federation (EHF) reconhecem a enxaqueca crónica como entidade clínica distinta que requer abordagem terapêutica específica.

Fatores de Cronificação da Enxaqueca

A cronificação da enxaqueca resulta de múltiplos fatores, alguns modificáveis. O uso excessivo de analgésicos agudos (medication overuse headache — MOH) é o fator mais importante e modificável, presente em 50 a 80 % dos doentes com enxaqueca crónica. O uso de triptanos mais de 10 dias/mês ou de AINEs/paracetamol mais de 15 dias/mês durante mais de 3 meses pode induzir cefaleia crónica por abuso de medicação.

Outros fatores de risco incluem obesidade (IMC >30), perturbações do sono (insónia, síndrome de apneia obstrutiva do sono), depressão e ansiedade, stress crónico, uso excessivo de cafeína, história de traumatismo cranioencefálico e fatores genéticos. A identificação e correção destes fatores é fundamental para a reversão da cronificação e o retorno ao padrão episódico.

A European Headache Federation enfatiza que a educação do doente sobre os riscos do uso excessivo de analgésicos é uma prioridade na prevenção da cronificação. O diário de cefaleias é essencial para documentar o padrão de uso de medicação e identificar abuso. A Sociedade Portuguesa de Cefaleias recomenda intervenção precoce em doentes com enxaqueca episódica de alta frequência (>8 dias/mês) para prevenir a progressão para enxaqueca crónica.

Abordagem Terapêutica da Enxaqueca Crónica

O tratamento da enxaqueca crónica exige abordagem multimodal que combine terapêutica preventiva farmacológica, abordagens não farmacológicas e, quando presente, tratamento da cefaleia por abuso de medicação. A retirada dos analgésicos em abuso é o primeiro passo quando aplicável — pode ser feita de forma abrupta ou progressiva, frequentemente com apoio de corticosteroides orais ou topiramato para alívio dos sintomas de privação.

As terapêuticas preventivas orais para enxaqueca crónica incluem topiramato (50-100 mg/dia), amitriptilina, propranolol, flunarizina e candesartan. O topiramato tem a evidência mais robusta na enxaqueca crónica, com ensaios clínicos publicados na revista Headache demonstrando redução de 3 a 5 dias de cefaleia por mês. A adesão é fundamental, sendo necessário manter o tratamento durante 2-3 meses para avaliar a eficácia.

A toxina botulínica tipo A (onabotulinumtoxinA) é um tratamento específico aprovado para enxaqueca crónica, com base nos ensaios PREEMPT. São administrados 155-195 unidades em 31 pontos de injeção na cabeça e pescoço, a cada 12 semanas. A eficácia é superior em doentes com mais de 15 dias de cefaleia por mês. O NICE e a European Headache Federation recomendam a toxina botulínica como opção terapêutica em doentes com enxaqueca crónica que não responderam a pelo menos 3 tratamentos preventivos orais.

Anticorpos Anti-CGRP na Enxaqueca Crónica

Os anticorpos monoclonais dirigidos contra o peptídeo relacionado com o gene da calcitonina (CGRP) ou o seu recetor representam um avanço terapêutico major na enxaqueca crónica. O erenumab, fremanezumab, galcanezumab e eptinezumab demonstraram eficácia robusta em ensaios clínicos de fase III especificamente em enxaqueca crónica.

Estes fármacos são administrados mensalmente ou trimestralmente por injeção subcutânea (ou endovenosa, no caso do eptinezumab), com excelente perfil de tolerabilidade. Os ensaios clínicos publicados no The Lancet demonstram reduções médias de 4 a 7 dias de cefaleia por mês em doentes com enxaqueca crónica, com 30 a 40 % dos doentes a atingirem redução ≥50 %. A eficácia mantém-se ao longo do tempo com tratamento contínuo.

Em Portugal, o erenumab e o galcanezumab estão disponíveis para prescrição em centros especializados para enxaqueca crónica refratária. Os gepants orais (ubrogepant, rimegepant, atogepant) são opções adicionais, com o atogepant aprovado especificamente para prevenção da enxaqueca crónica. A European Academy of Neurology (EAN) recomenda os biológicos anti-CGRP como opção terapêutica em doentes com enxaqueca crónica que não responderam adequadamente a pelo menos dois preventivos orais convencionais.

Na Médico na Net, a equipa clínica oferece avaliação de enxaqueca crónica, identificação de fatores de cronificação (incluindo abuso de analgésicos) e orientação para centros especializados de cefaleias quando indicado.

Paciente em consulta online para acompanhamento de enxaqueca crónica

Perguntas frequentes (FAQ)

ESte tipo de enxaqueca é definido por cefaleia em 15 ou mais dias por mês, dos quais pelo menos 8 com características de enxaqueca, durante mais de 3 meses. O diário de cefaleias ajuda a confirmar o diagnóstico.

Sim. O uso excessivo de analgésicos (mais de 10-15 dias/mês) pode causar cefaleia por abuso de medicação, agravando paradoxalmente as dores. Esta é uma das principais causas de cronificação da enxaqueca.

Sim. A toxina botulínica tipo A está aprovada especificamente para enxaqueca crónica, com redução significativa dos dias de cefaleia. É administrada a cada 12 semanas em centros especializados.

Sim. Os anticorpos anti-CGRP (erenumab, fremanezumab, galcanezumab) têm eficácia demonstrada na enxaqueca crónica, com redução média de 4-7 dias de cefaleia por mês e excelente perfil de tolerabilidade.

Sim. Com tratamento preventivo adequado, evicção do abuso de analgésicos e gestão dos fatores de risco, muitos doentes conseguem reverter a cronificação e voltar a um padrão episódico de enxaqueca.

Conclusão

A enxaqueca crónica é uma condição incapacitante mas tratável, com abordagem terapêutica que combina identificação de fatores de cronificação, retirada do abuso de analgésicos, terapêutica preventiva oral, toxina botulínica e, mais recentemente, anticorpos anti-CGRP. O reconhecimento precoce da transição de enxaqueca episódica para crónica e a intervenção atempada são fundamentais para prevenir a deterioração e promover o retorno a um padrão de enxaqueca mais controlado.

Referências

International Headache Society (IHS)

European Headache Federation (EHF)

European Academy of Neurology (EAN)

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Dra. Alexandra Azevedo

Formação: Universidade de Barcelona
Nº ordem dos médicos: 71409

Biografia

A Dra. Alexandra Azevedo formou-se em Medicina na Universidade de Barcelona em 2015, onde posteriormente se especializou em Medicina Geral e Familiar. Durante a sua formação, desenvolveu um forte interesse pela abordagem à dor crónica, tendo realizado um mestrado integrado em Medicina e Cirurgia com investigação na Clínica no controlo da Dor. A sua experiência profissional inclui vários anos de prática clínica em Espanha, nomeadamente na Catalunha, onde teve contacto com uma grande diversidade de patologias e desafios, tanto na urgência, como nos cuidados de saúde primários.

Atualmente, exerce como médica de família na ULS Braga. Já integrou a equipa da urgência médico-cirúrgica do Hospital de Vila Nova de Famalicão e já colaborou como professora convidada na Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho, lecionando anatomia e fisiologia do sistema circulatório, respiratório e digestivo.

Os seus principais interesses clínicos incluem a urgência médica, a dor crónica, a depressão e a ansiedade, bem como a medicina preventiva e o controlo de fatores de risco vasculares. Dedica-se também à consulta antitabágica e à consulta de perda de peso, ajudando os seus pacientes a adotar hábitos de vida mais saudáveis. A sua abordagem ao cuidado baseia-se numa visão holística, considerando a saúde como um equilíbrio entre o bem-estar físico e psicológico.

A Dra. Alexandra distingue-se pelo seu humanismo e pela capacidade de oferecer soluções rápidas e eficazes para problemas menores, garantindo que os seus pacientes se sintam bem acompanhados. No Médico na Net, vê uma oportunidade de levar os cuidados de saúde a mais pessoas de forma acessível e conveniente.

Apaixonada por música e viagens, adora conhecer diferentes culturas e estilos de vida, o que enriquece a sua visão do mundo e a sua prática médica. Para ela, a medicina não é apenas uma profissão, mas um verdadeiro compromisso com o bem-estar das pessoas que acompanha. Como gosta de dizer: “A saúde é o equilíbrio entre o bem-estar físico e psicológico.