Introdução
O campo da farmacoterapia para a obesidade tem evoluído rapidamente, e uma das inovações mais relevantes dos últimos anos foi o desenvolvimento de agonistas duplos que atuam simultaneamente nos recetores GIP (péptido insulinotrópico dependente da glucose) e GLP-1 (péptido semelhante ao glucagon tipo 1). Esta nova classe de fármacos promete resultados superiores aos dos agonistas simples do recetor GLP-1, que já representavam um avanço significativo. Neste artigo, explicamos as diferenças entre estas duas abordagens farmacológicas.
O Que São as Incretinas GLP-1 e GIP?
Tanto o GLP-1 como o GIP são hormonas incretinas, produzidas pelo intestino em resposta à ingestão de alimentos. O GLP-1, como já referido, reduz o apetite, atrasa o esvaziamento gástrico e melhora a secreção de insulina. O GIP, por sua vez, também estimula a secreção de insulina e, segundo investigação recente publicada na revista Cell Metabolism (2023), desempenha um papel importante na regulação do metabolismo lipídico e na sensibilidade à insulina no tecido adiposo. A combinação da ação de ambas as hormonas resulta num efeito sinérgico na perda de peso.
Agonistas Simples do GLP-1: A Primeira Geração
Os agonistas do recetor GLP-1 foram os primeiros injetáveis aprovados especificamente para o tratamento da obesidade. Atuam predominantemente através da redução do apetite e do atraso do esvaziamento gástrico. Ensaios clínicos demonstraram perdas de peso médias entre 12% e 17% do peso corporal, conforme reportado pela Agência Europeia do Medicamento (EMA). São administrados por via subcutânea, geralmente uma vez por semana, e têm um perfil de segurança bem estabelecido após anos de utilização clínica em milhões de doentes.
Agonistas Duplos GIP/GLP-1: A Nova Geração
Os agonistas duplos GIP/GLP-1 representam a segunda geração de injetáveis para obesidade. Ao ativar simultaneamente dois recetores de incretinas, estes fármacos amplificam os efeitos sobre o apetite, o metabolismo energético e a distribuição da gordura corporal. O programa de ensaios clínicos SURMOUNT, publicado no The New England Journal of Medicine (2022), demonstrou perdas de peso médias de até 22,5% em 72 semanas — resultados significativamente superiores aos dos agonistas simples. A Associação Americana de Endocrinologistas Clínicos (AACE) classificou estes dados como “transformadores” para o tratamento da obesidade.
Comparação Direta: Eficácia e Tolerabilidade
Embora ainda existam poucos estudos de comparação direta (head-to-head), os dados disponíveis sugerem que os agonistas duplos oferecem uma perda de peso superior, com um perfil de efeitos secundários semelhante. Os efeitos gastrointestinais (náuseas, vómitos) são comparáveis entre as duas classes, embora alguns estudos sugiram melhor tolerabilidade gastrointestinal com os agonistas duplos. A Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) aguarda dados de longo prazo para emitir recomendações definitivas sobre a preferência entre classes.
Perspetivas Futuras
A investigação continua com o desenvolvimento de agonistas triplos (GLP-1/GIP/glucagon) que demonstraram em ensaios de fase II perdas de peso superiores a 24%. A Nature Reviews Drug Discovery (2024) considera que o futuro da terapêutica da obesidade passará pela medicina personalizada, com a escolha do fármaco adequada ao perfil metabólico individual de cada doente.
Referências
The New England Journal of Medicine. SURMOUNT-1 Trial — Tirzepatide Cell Metabolism. GIP receptor signaling and metabolism Agência Europeia do Medicamento (EMA). Dual incretin agonists American Association of Clinical Endocrinologists (AACE). Obesity treatment guidelines Nature Reviews Drug Discovery. Next-generation obesity pharmacotherapyEste artigo tem fins informativos e não substitui o aconselhamento médico profissional.
Consulte sempre o seu médico antes de iniciar qualquer tratamento