Introdução
O enorme interesse mediático em torno dos injetáveis para perda de peso gerou uma onda de desinformação que pode confundir doentes e comprometer decisões de saúde. Desde promessas milagrosas nas redes sociais até receios infundados, é fundamental separar a evidência científica da especulação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a desinformação em saúde como uma das maiores ameaças à saúde pública, e o tema da obesidade não é exceção. Neste artigo, analisamos os mitos mais comuns em relação á obesidade e perda de peso à luz da melhor evidência disponível.
Mito 1: “As Injeções Funcionam Sem Qualquer Esforço”
FALSO. Embora os agonistas do recetor GLP-1 reduzam significativamente o apetite, os melhores resultados são alcançados quando combinados com alterações alimentares e exercício físico regular. Os ensaios clínicos publicados no The New England Journal of Medicine (2021) incluíram aconselhamento sobre estilo de vida em todos os grupos de tratamento. A Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) é clara: estes medicamentos são um complemento, não um substituto, de um estilo de vida saudável.
Mito 2: “Qualquer Pessoa Pode Comprar e Usar Sem Receita”
FALSO. Em Portugal e em toda a União Europeia, estes medicamentos são sujeitos a receita médica obrigatória. O INFARMED — Autoridade Nacional do Medicamento — classifica-os como medicamentos de prescrição restrita, exigindo avaliação clínica prévia. A compra online sem prescrição médica é ilegal e perigosa, podendo expor o consumidor a produtos falsificados ou contrafeitos. A Interpol alertou em 2023 para o aumento da falsificação destes medicamentos no mercado negro.
Mito 3: “Causam Dependência”
FALSO. Os agonistas GLP-1 não causam dependência física ou psicológica. Não atuam nos centros de recompensa cerebral da mesma forma que substâncias aditivas. Contudo, como a obesidade é uma doença crónica, a descontinuação do tratamento pode resultar em recuperação do peso, o que não significa dependência, mas sim a necessidade de gestão contínua da doença. Um estudo publicado na Diabetes Care (2023) demonstrou que a recuperação de peso ocorre em aproximadamente dois terços dos doentes no primeiro ano após descontinuação.
Mito 4: “São Perigosos para o Coração”
FALSO. Na verdade, a evidência aponta para o contrário. O estudo SELECT, publicado no The New England Journal of Medicine (2023), demonstrou uma redução de 20% nos eventos cardiovasculares adversos major em doentes tratados com agonistas GLP-1. A Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) incluiu estes fármacos nas suas recomendações para redução do risco cardiovascular em doentes com obesidade.
Verdade: “Não São Adequados Para Todos”
VERDADEIRO. Existem contraindicações claras, incluindo história familiar de carcinoma medular da tiroide, gravidez e certas condições gastrointestinais. Além disso, não são indicados para pessoas que querem apenas perder 2 ou 3 quilos por razões estéticas. A Direção-Geral da Saúde (DGS) define critérios específicos de IMC para elegibilidade. O uso recreativo ou cosmético destes fármacos é desaconselhado por todas as sociedades médicas.
Conclusão
Informar-se através de fontes credíveis é o primeiro passo para tomar decisões de saúde fundamentadas. Consulte sempre o seu médico assistente antes de iniciar qualquer tratamento.
Referências
The New England Journal of Medicine. STEP 1 Trial
The New England Journal of Medicine. SELECT Trial
INFARMED. Medicamentos para o tratamento da obesidade
Este artigo tem fins informativos e não substitui o aconselhamento médico profissional.
Consulte sempre o seu médico antes de iniciar qualquer tratamento